segunda-feira, 11 de julho de 2016

COLUNA DO SARNEY: O Processo da Baronesa de Grajaú

O processo da Baronesa de Grajaú, que trata da acusação de que a dona Ana Rosa Viana Ribeiro – esposa do doutor Carlos Fernando Ribeiro, chefe do Partido Liberal no Maranhão, que depois seria escolhido por dom Pedro II Barão de Grajaú -, teria por constantes sevícias e maus-tratos morto um escravo seu, um menino de 8 anos, de nome Inocêncio.

O crime teve um grande repercussão na cidade e envolvido médicos de grande renome, como o dr. Santos Jacynto, conceituado e grande médico que assinou o atestado de óbito dizendo ter o menino morrido de hipoemia intertropical, o que significa opilação, vermes. Acontece que o cadáver apresentava sinais marcantes de pancadas, equimoses, feridas, derrame craneano, enfim, todas as evidências de ter sofrido o que os escravos sofriam: tortura, sevícias, surras.

Eu era Oficial Judiciário, trabalhava no Tribunal de Justiça, na Rua Afonso Pena, esquina com a Rua Direita. Tinha 19 anos. O Governo Paulo Ramos construíra o novo Tribunal na Praça Pedro II. Começou a mudança e o presidente do Tribunal, desembargador Joaquim Santos, determinou que os processos velhos, os que fossem anteriores a 30 anos, podiam ser jogados fora. A mudança levou vários meses. Não tínhamos muitos caminhões e o transporte era feito pelas carroças, que se enfileiravam ali para carregar as coisas. Fui designado para ajudar. Numa das carroças eu, já intelectual e jornalista, em breve membro do Instituto Histórico, sucedendo o professor e grande homem de letras Antônio Lopes, comecei a tentar salvar alguns daqueles papéis que eu julgava um crime irem terminar na maré. Encontrei o processo da Baronesa. Eu conhecia o caso. Exultei. Salvei outros processos que doei a Arnaldo Ferreira.

Não sei se constam da sua grande biblioteca, hoje pertencente ao Senac. Comuniquei na Faculdade ao colega Walbert Pinheiro, que com ele permaneceu uns dias. E guardei na esperança de escrever um romance com aquele repositório de informações.

O tempo passou. O processo sempre comigo. Uma noite, em Brasília, Josué veio com Yvone jantar comigo. Disse-lhe que tinha o processo da Baronesa de Grajaú. Seus olhos brilharam. Mas estabeleci uma condição: que ele escrevesse um romance sobre a história. Trato feito, dei-lhe o processo. Josué, com ele, escreveu sua maior obra, Os Tambores de São Luís, o romance da escravidão, escrito com um século de atraso, mas preencheu uma lacuna. É um livro monumental.

Numa solenidade, no Museu Histórico do Maranhão (fundado por mim), Josué em minha frente, fazendo referência a essa história, doou ao Museu o famoso manuscrito. O tempo passou, e perdi de vista o processo.

Há alguns anos o historiador José Eulálio Figueiredo de Almeida escreveu um livro sobre ele, obra muito bem construída, escrita numa linguagem moderna, sem concessões ao barroco e abrangendo todos os ângulos desse rumoroso caso, que passou a ser um marco na História do século XIX, no Maranhão, dando margem a que se tivesse uma visão ampla sobre a vida cotidiana, os costumes, com incursões sobre a medicina, a consciência do povo sobre a mancha hedionda da escravidão.

As duas visões, a de Josué e a do professor José Eulálio, são os melhores testemunhos dos preconceitos e costumes da sociedade maranhense de sua época. Quem escreverá o retrato da nossa?

José Sarney
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