sexta-feira, 30 de junho de 2017

Sebrae apresenta resultados da metodologia Balde Cheio na Região Tocantina

O Dia de Campo será realizado amanhã (01), na Fazenda São José, no Povoado São Miguel em Porto Franco.

Para apresentar alguns dos resultados de sucesso, obtidos com a utilização da metodologia Balde Cheio em propriedades rurais da Região Tocantina, por meio do projeto do Agronegócio, a regional do Sebrae em Imperatriz, realiza neste sábado (01), em Porto Franco, o Dia de Campo Balde Cheio: Gestão da Propriedade Leiteira, que vai mostrar os resultados econômicos conquistados e as melhorias alcançadas por esses produtores que fazem parte do projeto. 

A ação é uma realização do Sebrae em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Prefeitura de Porto Franco, por meio da secretaria municipal de agricultura. O Dia de Campo será realizado na Fazenda São Francisco, no povoado São Miguel, em Porto Franco, de propriedade do empreendedor rural José Roberto, atualmente atendido pelo projeto. 

Durante a programação também serão fornecidas orientações, referentes ao manejo de pastagem, quadro reprodutivo, irrigação, nutrição de bovino leiteiro, melhoramento genético em gado leiteiro e gestão rural. Os assuntos serão tratados pela equipe de Sebrae e Embrapa, além de especialistas das empresas parceiras Gerapec, Naandanjan, Boiadeiro e Pecplana.

A Região Tocantina é considerada uma das maiores bacias leiteiras do Maranhão e contempla diversos municípios que estão em amplo desenvolvimento na produção leiteira. Por meio do projeto Indústria de Laticínios, a regional do Sebrae em Imperatriz atende cerca de 226 produtores rurais da região, que empreendem da atividade produtiva do campo e mais quatro indústrias, contemplando toda a cadeia produtiva do setor.
Em outubro de 2016, o pesquisador da Embrapa sudeste SP e criador do Balde Cheio, Artur Chinelato, visitou diversas fazendas demonstrativas de leite da Região Sul do Maranhão, João Lisboa, Cidelândia, Açailândia, Estreito, Porto Franco, Buriticupu e Buritirana; que são assistidas pela metodologia, através de uma parceria do Sebrae Maranhão com a Embrapa Sudeste SP. As unidades têm gerado resultados positivos aos empreendedores rurais, com aumentos significativos na produção leiteira desde a implantação da tecnologia em suas propriedades.
Confira a entrevista exclusiva com o criador da metodologia de transferência de tecnologias, Balde Cheio.

Entrevista com pesquisador da Embrapa Sudeste SP, Artur Chinelato

1 - Como o método Balde Cheio foi concebido? Como surgiu a ideia?
Artur Chinelato: A ideia do Balde Cheio surgiu após uma palestra que nós fizemos no município de Quatis, no sul do estado do Rio de Janeiro. Ao final dessa palestra, chegou um senhor e perguntou se eu iria ajudá-lo a fazer o que tinha falado. Eu a princípio falei que não, porque precisava ir embora. Ele então fez uma segunda pergunta, se alguém sabia fazer o que tinha falado ou um técnico. Eu respondi que não sabia, não conhecia ninguém ali, era a primeira vez que estava no município.
Na sequência o senhor completou e perguntou para que eu fui até ali, já que não ia ajudá-lo e ninguém do município também. Disse que estava saindo da palestra pior do que entrou, pois foi achando que iam resolver o problema da pecuária leiteira no sul do estado do Rio de Janeiro, como o preço do leite, qualidade dos animais, do relevo acidentado, qualidade do solo que era baixa, e disse ter chegado a conclusão de que o único problema da sua propriedade era ele.
Aquilo me deixou chateado porque esse senhor tinha razão. Fui embora para São Carlos (SP), conversei com os colegas da Embrapa sobre a situação e falei que precisávamos fazer alguma coisa, pois a Embrapa não é uma empresa de assistência técnica e sim de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Pensamos que poderíamos trabalhar no sentido de desenvolvimento, que é treinar, capacitar os técnicos da extensão rural, seja particular ou profissional autônomo, para que ele entenda esses conceitos que norteiam uma pecuária leiteira intensiva, eficiente, rentável e sustentável.
Então começamos esse trabalho em uma propriedade em São Carlos, foi se espalhando e hoje estamos em vários estados do Brasil, fazendo esse mesmo tipo de trabalho. São quase 400 municípios brasileiros, mais de 300 técnicos em capacitação e mais de duas mil propriedades participantes do trabalho, que ainda é pouco num universo de Um milhão e Duzentos mil de propriedades leiteiras espalhadas pelo Brasil, mas é o que temos condição de fazer.

2 - Quando, onde e como ele foi implantado?
Artur Chinelato: A reunião com esse senhor foi em 1997. A implantação foi um ano depois em 1998, ficou um ano de discussão de como íamos fazer esse treinamento, surgiu então a ideia de utilizarmos uma propriedade leiteira familiar como se ela fosse uma sala de aula prática, onde nós iríamos atuar como extensionista, tendo ao lado outro técnico extensionista que estaria sendo treinado, para ele entender como abordar o produtor, escutar e propor mudanças dentro do universo dele.

Quando saímos de uma propriedade e vamos para outra, esquecemos tudo que foi falado porque vamos entrar em outro mundo, com outros objetivos, outras situações financeiras, outras características de rebanho, propriedade, solo, clima, tudo diferente. As pessoas não são iguais e o trabalho não é caracterizado por um pacote que se aplica ás propriedades em geral, pelo contrário, cada propriedade vai ser tratada de forma única e pessoal. Depois de São Carlos, o Balde Cheio foi se espalhando, iniciou no Rio de Janeiro, Minas Gerais, e outros estados que foram somando o trabalho. Aqui no Maranhão iniciou em 2008 esse trabalho de capacitação dos técnicos.

3 - Quais os resultados iniciais? Eles foram animadores?
Artur Chinelato: O principal resultado foi recuperar a auto estima do produtor, mostrar para ele que é possível ter uma qualidade de vida independente do tamanho da propriedade e situação financeira. Nós pegamos casos de dificuldade financeira extrema com muitas dívidas e dentro desse quadro vamos trabalhando na velocidade que o produtor desejar, já que ele é o dono da propriedade e não nós e vamos fazendo as modificações. Não tem um tempo mínimo ou tempo médio, que começam a ter os resultados palpáveis como o aumento da produção de leite, o resultado que queremos de imediato nas pessoas, é que entendam o recado, é você recuperar a vontade de querer mudar o rumo da vida.

Os primeiros anos foram animadores, é um projeto que está completando a maioridade, 18 anos, porque tem uma base muito sólida e princípios, independentemente do tipo de rebanho ou área da propriedade que o produtor tenha. Temos propriedades no projeto de meio hectare e outras de mais de mil hectares, propriedade que iniciou sem nenhuma vaca e outras com 200, 300 vacas. A menor propriedade do projeto hoje tem área de mais de meio hectare em Valença no estado do Rio de Janeiro e a maior em Teixeira de Freitas na Bahia, que tira oito mil litros de leite por dia. As duas propriedades são diferentes, mas a seriedade do trabalho realizado é exatamente igual.

4 - Que tipo de modificação ou adaptação o plano original sofreu? Como essas mudanças foram implantadas?
Artur Chinelato: Fomos mudando ao longo do tempo, os controles, planilhas de avaliação econômica, mudando de acordo com as sugestões dos próprios técnicos e cada vez mais continuamos alterando coisas no sentido de melhorar o que estamos fazendo. As mudanças são implantadas naturalmente, técnicos propõem alterações e a gente avalia para introduzir, inclusive na parte técnica também. Quando nós começamos a fazer a semeadura de aveia sobre as pastagens tropicais irrigadas que nós tínhamos, não imaginávamos que pudéssemos trabalhar com esse tipo de operação de processo sobre as gramas. Não temos a preocupação de acertar sempre, o compromisso é de não persistir no erro, decidimos tudo em conjunto, muitas vezes os produtores tem sugestões melhores que as nossas para resolver um problema na propriedade e aí ajustamos.

5 - Como o Balde Cheio chegou ao Maranhão?
Artur Chinelato: No Maranhão foi uma requisição do Sebrae, indicamos um técnico e depois ele foi substituído pelo atual instrutor que é o Júnior Rosseto, treinado por nós, que se destacou e está aqui há sete anos, atendendo produtores e técnicos do Maranhão.

6 - Foi preciso adaptá-lo para aplicar aqui? Que adaptações foram feitas?
Artur Chinelato: Algumas técnicas sim foram adaptadas, mas os conceitos básicos, eles valem para o Maranhão, valem para São Paulo, Estados Unidos, Europa. Os conceitos básicos da atividade leiteira que se tem índices perfeitos zootécnicos, que é você ter maior quantidade possível de vacas em lactação por hectare, isso aí não muda de país para país e nem de sistema de produção, pode ser, por exemplo, um sistema a pasto confinado, enfim, não nos restringimos a um tipo de sistema de produção específico, trabalhamos com qualquer tipo de sistema de produção leiteira.

Aqui no Maranhão como o calor é intenso, foi reduzido o numero de piquetes que se usava, especificamente para 26, em alguns lugares com a irrigação, para 24 piquetes. Esse tipo de adaptação que foi feita não é muito radical, mas levando em consideração o calor intenso que se faz aqui, é um ponto extremamente positivo para a produção das pastagens.
Evidentemente que isso afeta os animais, mas se trabalharmos com manejo, colocar os animais para pastejar, abrir o piquete novo no final do dia e deixar o animal sossegado durante o dia, quieto em baixo de uma sombra, já minimiza bastante esse efeito do calor sobre os animais.

7 - E os resultado no Maranhão? Como você os interpreta? Bons, ruins, esperados?
Artur Chinelato: Os resultados são muito bons, claro que tem produtores que começaram, não entenderam o trabalho e saíram, assim como técnicos também, isso acontece em todos os lugares. Mas vemos resultados em propriedades que em seis meses, um ano, conseguiram entender o trabalho, mudaram, triplicaram a produção leiteira e com isso a renda aumentou, gerando um entusiasmo.

Fiquei muito satisfeito com o que vi nas visitas realizadas no mês de outubro em diversos municípios do sul do estado. Foi mais do que o esperado porque os resultados aqui estão acontecendo muito rápido e isso nos deixa animado com o futuro dessa produção leiteira no estado.

8 - Como o método pode influenciar na expansão deste mercado no país e na região tocantina?
Artur Chinelato: No futuro, alguns produtores entendendo qual o papel deles, não tenho dúvida, que vamos ser exportadores de leite, não sei se daqui a 10, 20 anos. O mundo inteiro está de olho no Brasil, a FAO, que é um órgão dentro da ONU que lida com alimentação, precisa e já conta com o Brasil como produtor de alimentos para uma população mundial em expansão e que tem mais terras agricultáveis para se trabalhar ainda, pois os demais países como Rússia, Estados Unidos tem pouco, além de terem terras muito caras.

A região tocantina com essa fartura de luz solar, calor, muitas propriedades com água, que possibilita a utilização de irrigação; vai ter um papel importante, sem contar que está próxima da Europa geograficamente, pelo aeroporto de São Luís tem o escoamento de todos esses produtos agrícolas; então é uma vantagem estratégica muito grande, basta os produtores se conscientizarem.

9 - O que esperar nos próximos anos?
Artur Chinelato: Esperar que o Brasil refaça seu rumo, e entenda que o país é agrícola por essência. Quem tem salvado o Brasil nesses últimos anos tem sido o setor agropecuário. Esperamos que tenham cada vez mais incentivos, para que a gente consiga superar essa crise e trilhar o nosso caminho que é o do crescimento. Não tenho dúvida que o Brasil vai ser um grande exportador de alimentos.
# Compartilhar: Facebook Twitter Google+ Linkedin Technorati Digg

Galeria de Fotos

 
Copyright © 2013 Blog da Kelly